As imagens na consciência e os movimentos no espaço. Esse é o corte operado pela psicologia para explicar-se a si mesma. Na consciência, as imagens inextensas, qualitativas. No espaço, os corpos a se moverem, quantitativamente. O problema: como se passa de uma ordem para a outra? Como que o movimento, no espaço, se torna uma imagem na consciência, a maneira duma percepção, e como, inversamente, uma imagem mental se torna movimento, como na ação voluntaria de querer escrever o que estou a escrever, agora? Invoca-se o cérebro, para esta missão, dando-lhe o miraculoso poder de operar estas mudanças de natureza. Não se resolveu o problema, contudo. Ao contrário! Instala-se, aí, uma guerra de trincheira entre o materialismo e o idealismo. Crise na psicologia! Dualismo entre imagem e movimento, entre coisa e consciência. Na mesma época, dois autores, por caminhos muito diversos, empreenderam a tarefa de superação desta dualidade: Husserl, dizendo que "toda consciência é consciência de alguma coisa"; e o Bergson, colocando que "toda consciência é alguma coisa". A colocação deste problema foge ao escopo da própria filosofia, contudo. O cinema, mesmo, fornece, a sua própria maneira, as evidências duma imagem-movimento. Bergson, como já vimos, não é afeito ao cinema. As três teses sobre o movimento, que Deleuze apresenta como um primeiro comentário de Bergson, clareiam a postura deste para com o cinema-ilusão-de-movimento. Destarte, não repetirei os argumentos de conversas anteriores. Já Husserl nem tangencia o cinema em suas obras e mesmo Sartre, ao fazer análises de tipos vários e vários de imagem, não conclama a imagem cinematográfica. É em Merleau-Ponty que vemos um diálogo entre o cinema e a fenomenologia, ao dizer que o movimento percebido - e a percepção natural e suas condições é o plano de discussão duma fenomenologia, lembramos - não equivale a uma "Idéia", mas a uma forma sensível, uma "Gestalt", que organiza um campo perceptivo para uma consciência intencional. Diz Merleau-Ponty do cinema que, por mais que este se aproxime - nos aproxime - das coisas, suprime o "horizonte do mundo", a "ancoragem do sujeito" no mundo, substituindo a percepção natural por uma intencionalidade no plano do saber implícito. Diz, ainda, que no cinema - ao contrário das outras artes - o mundo é que se torna imagem e não o inverso; visa não uma imagem através do mundo, mas faz do próprio mundo uma imagem, um irreal. O cinema, na voz do Merleau-Ponty, soa como infiel à percepção natural, sendo minimamente exaltado apenas no que tange a sua capacidade de "se aproximar" do mundo. A denúncia bergsoniana do cinema toma outro caminho. Para Bergson, se o movimento cinematográfico não equivale ao movimento real é porque ele emula, justamente, a percepção natural. Não é a percepção natural que Bergson toma como modelo do real, ao contrário dos fenomenólogos, mas antes um estado de coisas que não é estado, mas mudança, fluxo sem qualquer centro de referência. É a partir deste estado de mudança que, segundo Bergson, deduzimos a percepção da consciência, impondo ao fluxo do real uma vista instantânea, fixa. Mesmo através dessa sua crítica ao cinema - que já foi, repito, exaustivamente comentada - Bergson se situa no mesmo plano que ele, muito mais do que supunha. É o que Deleuze nos mostra através da sua revisão acerca do primeiro capítulo do Matéria e Memória. Imagem é tudo aquilo que aparece. E toda imagem - toda coisa - equivale a suas ações e reações, não cabendo procurar no movimento outra coisa além do que nele já se mostra. Daí, a exposição bergsoniana: "Imagem = Movimento". Um átomo é uma imagem, visto ser um conjunto de movimentos, agindo e reagindo sobre imagens outras. Meu olho é uma imagem, e faz parte de meu corpo, uma outra imagem. Meu cérebro, idem. Pergunto com o Bergson: como pode meu cérebro conter as imagens do mundo, visto ser, ele mesmo, uma imagem no meio de tantas outras? Como pensar as imagens como interiores a minha consciência, se sou, eu mesmo, uma imagem, um movimento? Levando a história um pouco mais a sério: Como posso ainda falar de átomo, de olho, de cérebro, de corpo, de "eu", num mundo que tem como único universal a mudança, a variação e o descentramento? Ao conjunto de todas as imagens - conjunto infinito, este - Deleuze chama plano de imanência, plano no qual a imagem existe em-si, visto ser idêntica ao movimento e à matéria. Vamos com calma, entretanto. Não se trata, aqui, de um materialismo ou de um mecanicismo, visto que estes implicam sistemas fechados, finitos e independentes, como conjuntos exteriores uns aos outros, dando-se o mesmo com seus elementos. O plano de imanência é movimento, sim, mas é o movimento que se estabelece tanto entre os elementos dum mesmo conjunto quanto entre conjuntos diferentes, impedindo-os de serem fechados em absoluto. Tal plano é um corte, mas não o corte imóvel e instantâneo do mecanicismo, e sim um corte móvel, temporal. Bloco de espaço-tempo! Maquinismo, não mecanismo! É este o desdobramento deleuziano do Matéria e Memória. O universo como um metacinema, colocando - através do bergsonismo - uma visão totalmente outra da que o próprio Bergson propôs. Nossa inteligência intencional, entretanto, não resiste em perguntar sobre as tais "imagens em si", imagens que não precisam de ninguém para existir. Como falar de imagem sem um olho que a mire? Deleuze se explica. É importante distinguir coisa e imagem; corpos e movimento. Nossa percepção é gramatical, linguística, e opera através de corpos-substantivos, qualidades-adjetivos e ações-verbos. As ações - chorar, correr, brigar - traduzem o movimento em um lugar para onde este se dirige, ou do resultado que este produz. As qualidades traduzem o movimento por um estado, um bloco-estado - triste, cansado, nervoso - a esperar um outro bloco-estado a substituí-lo. Os corpos - um olho, um punho, você, eu, o "Eu" - traduzem o movimento como um sujeito a executá-lo, um objeto a sofrê-lo ou um movente a lhe dar carona. Imagens-ação, imagens-afecção e imagens-percepção. Estas, porém, não consistem no movimento mesmo. A identidade "imagem = movimento" funda-se na identidade "matéria = luz", que Bergson desenvolve em seu Duração e Simultaneidade, dedicado à relatividade einsteniana. Assim como Einstein inverte a relação entre as "linhas de luz" e as "linhas rígidas", dizendo que é a figura luminosa que se impõe às figuras rígidas, sólidas e geométricas, Bergson fala da imagem-movimento como imagem em si, ainda sem um corpo ou forma a lhe revelar. Os blocos de espaço-tempo do Deleuze são essas figuras de luz, a propagarem-se sobre todo o plano de imanência, todo o universo material. Se a imagem não aparece para um olho, um eu, é porque a figura de luz ainda não se refletiu, rebateu, redobrou-se, como uma imagem cinematográfica sem um ecrã negro sobre o qual poderia se lançar. Rompe-se com a tradição filosófica, aqui, que fazia da consciência a luz do esclarecimento a banhar o mundo e as coisas deste. Mesmo a fenomenologia ainda mantém um pé neste circuito, ao dizer que toda consciência é consciência de alguma coisa. Bergson diz do contrário. São as coisas que são luminosas em si mesmas, sendo a consciência uma imagem dentre outras a servir de anteparo. A consciência é alguma coisa, aqui, não sendo ela mesma a luz, mas o conjunto das imagens, já luminosas por si. A luz, o olho, a fotografia já residem nas imagens. A consciência é, "apenas", a superfície opaca sem a qual a luz, o olho, a fotografia jamais seriam revelados. Deleuze marca, assim, a gritante distinção entre Bergson e o projeto fenomenológico. Imagens-movimento, figuras de luz, blocos de espaço-tempo. Ao conjunto destas linhas luminosas, chamamos plano de imanência...
Thiago, o texto está limpo e direto. Entretanto, me vi na condição de voltar a uma leitura do capítulo. Daí, por enquanto, fica apenas o registro da leitura, antes que se passe ao fundamento de uma conversa. Abraço!
ResponderExcluirJames, depois de ter lido o sobre a imagem-movimento eu entendi melhor seu texto, melhor, seu texto tá mais claro que o próprio texto de conversações.
ResponderExcluirVc marca muito bem a distinção que Deleuze marcou. rs