terça-feira, 24 de agosto de 2010

Teses sobre o movimento

Imagem movimento. Gilles Deleuze

Notas iniciais
O meu livro é uma edição portuguesa. Daí, Souza Dias, o tradutor, abre o livro com algumas considerações sobre como foi o processo de transpor para sua língua os ditos do Deleuze. Talvez possamos fazer uma comparação adiante com os termos que ele põe em questão. Algo a respeito das categorias semióticas de Peirce, o termo empreinte, onde critica a solução dada por americanos e espanhóis, etc.
Bom daí encontro o Prólogo, já uma escrita do Deleuze. Nele fica clara a ocupação do livro. “Esse estudo não é uma história do cinema. É uma taxinomia, uma tentativa de classificação das imagens e dos signos”(2009, p.11). Daí Charles Sanders Pierce passa a ser um intercessor importante para a discussão do texto e Bergson é o pensador que vai ser tematizado pelo mesmo. Imagem-movimento e imagem-tempo. Como são filosofados esses encaminhamentos bergsonianos no cinema em Deleuze? Uma questão. Outra: o cinema do Glauber Rocha pensa como imagem movimento ou como imagem-tempo? É possível pensar os dois?

Capitulo 1. Teses sobre o movimento
1.
Bergson apresenta três teses sobre o movimento. A primeira diz que “o espaço percorrido é divisível, ao passo que o movimento é indivisível, ou não se divide sem mudar a natureza com cada divisão” (p.12). Daí conclui que o espaço percorrido é homogêneo e o movimento, heterogêneo, assim irredutível. Algo assim, não se analisa o móvel enquanto imóvel.
Traz a idéia de sucessão: um mesmo tempo, que falha para a análise do movimento. “... o movimento far-se-á sempre entre o intervalo de dois, …, (e) cada movimento terá a sua própria duração qualitativa” (13 p.).
O cinema em Bergson agrupa os cortes instantâneos, imagens, e o tempo impessoal, abstrato. Assim é marcado, em princípio por um falso movimento. Mas daí, a questão deixa de ser o cinema, para ser aquilo que o cinema nos oferece. Não se trata de discutir a velocidade das 24 imagens por segundo, os fotogramas, mas uma “imagem média como dado imediato”.
“Em suma, o cinema não nos dá uma imagem à qual ele acrescentaria movimento, dá-nos imediatamente uma imagem-movimento” (15 p.). Antes, Deleuze diferencia a percepção natural ou a postura fenomenológica do entendimento bergsoniano de imagem-movimento.
Daí vai discutir a questão do NOVO. Como é possível a produção do novo. Duas citações complementam essa idéia: “A essência de uma coisa nunca aparece no início, mas no meio, na corrente de seu desenvolvimento, quando as suas forças se consolidaram”, (15p.) e “A evolução do cinema, a conquista da sua própria essência ou novidade, far-se-á pela montagem, pela câmera móvel e pela emancipação da tomada de vistas que se separa da projeção. Então o plano deixará de ser uma categoria espacial para se tornar temporal; e o corte será um corte móvel e já não imóvel” (16p.).

2.
Em a E.C. Bergson apresenta duas modalidades de ilusão. Uma antiga, outra moderna. A antiga é concebida apenas como a “passagem regulada de uma forma para outra, quer dizer, uma ordem das poses e instantes privilegiados, como numa dança (17 p.)”. O moderno vai tomar o instante como um QUALQUER. Troca a transcendência pela imanência, as poses pelo cortes. “(...) a sucessão mecânica de instantes quaisquer substituía a ordem dialéctica das poses”(18 p.). O cinema emerge como vetor dessa concepção de movimento:
(…) as condições determinantes do cinema são as seguintes: não apenas a fotografia, mas a fotografia instantânea (a fotografia de pose pertence à outra linhagem); a equidistância dos instantâneos; a transferência dessa distância para um suporte que constitui o 'filme' (foram Edison e Dickson que perfuraram a película); e a um mecanismo para arrastar as imagens (os dentes de Lumière). (19p.).

Discussão sobre os instantes privilegiados na concepção moderna de movimento. Pontos singulares que pertencem ao movimento. O instante qualquer pode ser regular ou singular, ordinário ou notável. Eisenstein: o patético supõe o orgânico, “como conjunto organizado dos instantes quaisquer por onde os cortes devem passar” (20p.).
3.
Terceira tese de Bergson: “não só o instante é um corte imóvel do movimento como o movimento é um corte móvel da duração” (20 p.).
“O movimento remete sempre para uma mudança, a migração para uma variação SAZONAL”. (23p.).
Os cortes imoveis estão para o movimento, assim como o movimento como corte móvel está para uma mudança qualitativa, sendo que a primeira relação exprime uma ilusão e a segunda uma realidade.
O TODO definido como relação, que é sempre exterior aos seus termos.
O movimento tem duas faces: é o que se passa entre os objetos ou partes e o que exprime a duração ou o todo.

Um comentário:

  1. Recapitulando. A primeira tese diz de uma crítica às tentativas de reconstituição do movimento através de cortes imóveis e temporalidades abstratas. Uma crítica do cinema como reprodução da percepção ilusória que temos do devir. E a apresentação dos cortes móveis/planos temporais/imagem-movimento, que tão bem definem, pro Deleuze, o cinema.

    Na segunda tese, é apresentada as formas moderna e antiga de "ilusão cinematográfica". Seja através de poses transcendentes ou de cortes imanentes, torna-se impossível reconstituir o movimento porque, em ambos, atribuímos uma totalidade, enquanto no movimento real o todo não é dado. Ao lidar com o movimento invocando momentos deve-se considerar a produção de novidade. Assim como Bergson recoloca a filosofia - legando à ciência uma nova metafísica - Deleuze se utiliza da segunda tese de Bergson para colocar o cinema não como um reprodutor de ilusões, mas como modelo duma nova realidade artística.

    Por fim, a terceira tese, que não debatemos pessoalmente: assim como o instante é um corte imóvel do movimento, o movimento é um corte móvel da duração, duma totalidade. Que seja, o movimento é a mudança mesma nessa duração ou totalidade.O todo é relação e a relação não é uma propriedade dos objetos, mas lhe é sempre exterior. O todo, ou os todos, não são como conjuntos. Um conjunto é fechado, definido e artificial. É sempre um conjunto de partes. O copo de água, usado como exemplo, é um conjunto: a água, o copo, a colher do Deleuze. Isto não é o todo, mas um conjunto. O todo, criação incessante, se dá como devir espiritual. O copo, a água e a colher são abstrações do todo, recortadas pelos meus sentidos e desvelando-se em forma de consciência. Este recorte artificial, transformação da totalidade aberta num sistema fechado não deve ser encarado como simples ilusão. As fórmulas da primeira tese ganham, aqui, novo formato. As partes de um conjunto fechado são cortes imóveis, sendo os estados sucessivos calculados num tempo abstrato, enquanto a abertura da totalidade corresponde ao movimento real duma duração concreta, sendo os movimentos equivalentes aos cortes móveis que atravessam o sistema fechado. O movimento é duplo. Passa por entre as partes e, ao mesmo tempo, exprime o todo. Divide a duração em múltiplos objetos e conjuntos e os reúne de novo na duração. Cai a ficha sobre a profundeza do Matéria e Memória: não há, apenas, a imagem instantânea, o corte imóvel, mas imagem-movimento, corte móvel da duração, numa relação de mudança para além do movimento mesmo...

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