sábado, 11 de setembro de 2010

Lendo uma crônica outro dia fui reportada ao momento patético de Eisenstein. Não aquele instante privilegiado da dialética antiga, mas aquele que é privilegiado e não deixa de ser um instante qualquer. O autor da crônica parecia buscar estas formas transcendentes que se atualizam no movimento, porém deparou-se com a produção e a confrontação dos pontos singulares imanentes ao movimento. Como posto, o singular extraído do qualquer.Longe de representar um corte imóvel, a crônica nos mostra como cenas são levadas aos seus paroxismos e como se colidem, mesmo que uma delas não esteja no campo perceptivo ou "narrativo". Sabino parece ter aprendido com Eisenstein. A cena que ele observa é composta de momentos equidistantes, que estão para além da moldura e que enquanto reportada ao instante qualquer engendra a produção do novo. Novos sentidos,novos significados que não cabem no enquadramento.O extracampo se apresenta, mostrando que cada instante, enquanto corte imóvel do movimento, faz do movimento o corte móvel da duração. Cada parte abre-se para o todo e dançam suavemente.
Eis a crônica:

A Última Crônica / Fernando Sabino

A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever.
A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de
esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial.
Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: "assim eu quereria o meu último poema". Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.
Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres
esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.
Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado garçom encaminha a ordem do freguês. O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular.
A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritul. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.
São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto
ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: "parabéns pra você, parabéns pra você..." Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa.
A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.
Assim eu quereria minha última crônica: que fosse puro como esse sorriso.

Texto extraído do livro "A Companheira de Viagem", Editora
do Autor - Rio de Janeiro, 1965, pág. 174.

3 comentários:

  1. Atentemos para um detalhe, mas um detalhe que - como diria o outro - é tudo! A imagem-movimento, o corte móvel da duração, o extracampo são típicos não de uma ou outra historieta privilegiada, mas de toda cadência narrativa. A própria narração - de Eisenstein a Dragon Ball, de Godard a Tom & Jerry - se define pela imagem-movimento, que não é uma simples imagem em movimento, mas uma imagem que se refere tanto aos conjuntos de elementos do quadro quanto à temporalidade além-do-homem. Confesso que não entendi a referência ao conto! Não porque ele não "nos coloca na duração" mas porque toda narrativa - por mais sensório-motora que seja - é fruto de imagens-movimento. No aguardo...

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  2. Se bem que uma narração sensório-motora, termo do Paul Virilio (ou seria do Deleuze?...), suscita apenas recognições e reações. O todo como soma de todos os conjuntos dados... Enfim...

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  3. Li essa crônica quando fazia o ensino médio. Ou seria a 8a série? Lembro que arrepiei o corpo. Lembro que me vi na cena, estando naquele lugar com as pessoas-personagens. Novamente me vi em cena e me vi por trás da lende da câmera que grava e diz daquilo que vai ser visto e daquilo que vai ser lido.
    Se tomarmos os soviéticos, a imagem-movimento não se acomodaria numa dinâmica sensório-motora, creio, já que alguma consciência estaria em questão, a apontar para uma historiografia do que está sendo visto. Daí o visto se faz uma leitura. O instante explode e vai montar cenas outras. De memória, seriam quatro possibilidades de cinema nesse movimento, ao qual aponta Deleuze. Não conseguiria aqui, ser fiel a alguma. Daí, arrisco num patético instante, mas pensando a câmera que opero. E o instante das migalhas do bolo que são tangidas para um outro lugar, deixando limpo a roupa da negrinha aniversariante. A câmera que opero pararia alguns instantes nesse colo, fechando na mão que expulsa as migalhas e deixa limpa a roupa da festa. Dali iria para o rosto do pai, a mão do cronista, seu corpo debruçado sobre um balcão. Em seguida se rosto que olha o pai e a cena segue como no texto, pois ela é demasiadamente visual.

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